Bob Hall, pioneiro das corridas em cadeira de rodas e bicampeão de Boston, morre aos 74 anos
Atleta abriu portas para a inclusão nas maratonas e formou gerações com cadeiras de competição projetadas por ele
Bob Hall, referência mundial nas corridas em cadeira de rodas e duas vezes vencedor da Maratona de Boston, morreu aos 74 anos. A Boston Athletic Association informou que a família confirmou a morte no domingo. Hall perdeu o uso das pernas por causa de pólio na infância e transformou o esporte ao conquistar espaço nas principais provas de rua dos Estados Unidos.
Em 1975, Hall convenceu a organização da Maratona de Boston a permitir sua participação. Recebeu a promessa de um certificado de conclusão, igual ao dos corredores a pé, caso cruzasse a linha de chegada dos 42,195 km em menos de 3 horas. Ele cumpriu a meta e inaugurou uma nova era para atletas em cadeiras de rodas na prova mais tradicional do país. “Não era, em si, sobre a maratona; era sobre inclusão. Eu estava trazendo pessoas junto comigo”, disse no ano passado, quando foi o grande marechal da corrida no 50º aniversário de sua participação histórica.
De pioneiro a campeão e símbolo de respeito
Hall voltou a Boston em 1977, quando a prova recebeu o Nacional de Cadeira de Rodas, e venceu em um pelotão de sete competidores. Na icônica subida de Heartbreak Hill, o então futuro campeão Bill Rodgers e Tom Fleming, quinto colocado entre os corredores a pé, reduziram o ritmo para incentivá-lo. “Aquela interação foi um sinal de que estávamos plenamente aceitos como atletas”, afirmou Hall.
Ao longo da carreira, ele subiu ao pódio de Boston outras três vezes e manteve participação ativa na comunidade da prova. Desde sua estreia, mais de 1.900 atletas em cadeiras de rodas cruzaram o trajeto de Hopkinton até a Boylston Street. Na edição deste ano, marcada para 20 de abril, são esperados 50 competidores na divisão de cadeira de rodas e outros 50 distribuídos em oito categorias paralímpicas, com premiação total superior a US$ 300 mil.
Batalha por espaço em Nova York e legado tecnológico
Em 1978, Hall moveu ação judicial para garantir a admissão de cadeirantes na Maratona de Nova York. A disputa só se encerrou quando o evento criou divisões masculina e feminina de cadeira de rodas, em 2000. Sua atuação, porém, foi além da pista e dos tribunais. Hall projetou e construiu cadeiras de corrida que equiparam gerações de atletas, incluindo nomes de elite como a heptacampeã de Boston Marcel Hug e a multicampeã paralímpica Tatyana McFadden.
“Bob Hall é um homem incrível. Sou muito grata a ele, e acho que todos nós somos, como atletas em cadeiras de rodas, porque ele abriu o caminho”, disse McFadden no ano passado. “Por causa dele cruzando aquela linha de chegada, conseguimos competir hoje. Evoluiu muito desde então. Ele foi corajoso ao dizer: ‘Vou fazer isso porque acredito que devemos competir na Maratona de Boston como todo mundo’.”
Relevância para brasileiros nos EUA
O avanço das divisões paralímpicas nas grandes maratonas americanas, impulsionado por casos como o de Hall, ampliou oportunidades para atletas brasileiros que vivem nos EUA ou viajam para competir. Boston e Nova York hoje oferecem estrutura, visibilidade e prêmios, atraindo competidores do Brasil e da diáspora. O acesso a cadeiras de alto desempenho, muitas inspiradas nos projetos desenvolvidos por Hall, elevou o nível técnico e facilitou a profissionalização.
A BAA não divulgou a causa da morte. O reconhecimento recente a Hall, como o posto de grande marechal em 2023, marcou o cinquentenário de sua primeira participação e consolidou seu papel na história do esporte. Seu legado segue visível na linha de largada de Boston, onde a presença de cadeiras de competição deixou de ser exceção para se tornar parte essencial da prova.